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terça-feira, 8 de outubro de 2013

NÃO NOS REPRESENTAM

A expressão “não nos representa” ganhou espaço nas redes sociais no período que antecedeu as jornadas de junho. Sua vítima mais ilustre foi o deputado Marco Feliciano, atacado pela comunidade GLTB e seus simpatizantes por causa de seu projeto sobre a “cura gay”. Foi usada também em outras situações, sempre com a intenção de afirmar que o político ou partido “x” ou “y” não representam as posições e interesses da minoria “a” ou “b”. Certamente essas minorias têm quem as represente no sistema partidário e ideológico do país. Alguém não tem?

Acabamos de assistir a autorização da Justiça Eleitoral para o funcionamento da trigésima primeira e da trigésima segunda legendas partidárias no Brasil e a não autorização da trigésima terceira, que, embora não possa lançar candidaturas em 2014, será autorizada para o pleito seguinte assim que obedecer aos requisitos legais.

A lei foi cumprida nesses três casos. Mas, em meio às críticas pela profusão de siglas no Brasil é curioso observar que o arcabouço legal existente amparou a criação de mais duas agremiações fisiológicas (PROS e Solidariedade) e barrou a criação de uma legenda com nítido viés ideológico, legítima liderança política de projeção nacional e efetiva representação de um segmento expressivo da sociedade (Rede Sustentabilidade). Há algo de errado aqui.

O que está errado no nosso sistema político não é a profusão de siglas, mas sim, o fato de que a criação de partidos permite a seus proponentes acesso a montanhas de cargos na máquina do Estado, dinheiro público e tempo de mídia no horário eleitoral gratuito. É isto que dá aos criadores de partidos de negócios o poder de barganha que lhes possibilita vender apoio aos governos e grandes partidos em troca de mais acesso a cargos e dinheiro público. Se essa prática fosse crime Marina Silva não seria condenada. Por outro lado, centenas, talvez milhares, de políticos que só representam a si mesmos teriam que ir para trás das grades.

Os partidos políticos brasileiros são organizações paraestatais. E, se considerarmos que os sindicatos no Brasil são órgãos de Estado, nem o PT, supostamente nascido “de baixo para cima” escapou disso. Chegando ao governo o PT perdeu totalmente a estrutura de núcleos de base de sua origem. Tornou-se mais um “partido de cargos públicos”.

Vou simplificar e correr o risco de afirmar que existem hoje, no mundo ocidental, dois grandes campos político-ideológicos que disputam o poder na maioria das democracias. E uma terceira força que emerge ainda sem contornos doutrinários claros.

À direita e à esquerda, sim, elas existem, vemos liberais e socialdemocratas. Sinteticamente diferenciam-se pela defesa da ingerência ou não do Estado na vida e nos negócios dos indivíduos. Em ambos os campos há seus matizes. Os polos extremos são os anarcocapitalista à direita e os jurássicos comunistas à esquerda. A terceira força é o ecologismo político.

Na rede dos Verdes há muitos ativistas e poucos formuladores capazes de definir o que seriam seus contornos doutrinários e ideológicos. Mas, é inegável que os Verdes são uma corrente política legítima, emergente e com expressiva representatividade em vários países do mundo. No caso brasileiro os Verdes são predominantemente de esquerda e não escondem a ambição pelo exercício do poder. Os marineiros não conseguiram legalizar um partido, mas querem governar o país. A Rede de Marina nasceu de uma costela do PT, embora tenha flertado com economistas liberais na formulação de sua plataforma de governo de 2010 e conviva com uma colorida fauna militante, inclusive, dizem, com gente com interesses qualidades morais duvidosas.

Há verdes de direita, há verdes de esquerda e há verdes que não são de direita e nem de esquerda, muito antes pelo contrário. Ainda não nasceram nem o Marx e nem o Adam Smith dos verdes. Adam Smith foi um defensor do liberalismo econômico. Marx, seu crítico, autor de O Capital, incursionou também pelo terreno da “teoria” política.

Embora tenham nascido da crítica econômica de Marx ao capitalismo, os comunistas sempre privilegiaram mais o pensamento político do que o econômico. Prova disso é que após o colapso da URSS nada surgiu de novo e relevante no campo do pensamento econômico de esquerda. Os fundamentos do pensamento econômico socialista seguem amparados na crítica ao capitalismo do século XIX e na resposta de Keynes às crises cíclicas do capitalismo. O que segue vivo no quadrante da esquerda é a ambição pelo poder.

O liberalismo pariu pensadores brilhantes. Seus fundamentos se alicerçam em um conjunto de ideias morais, políticas e econômicas. No entanto, os liberais contemporâneos teimam em reduzir o escopo de sua luta política ao debate econômico em defesa das ideias da Escola Austríaca e da Escola de Chicago como contrapontos às ideias de Marx e Keynes. No Brasil, os poucos liberais existentes fogem (ou fugiam?), como o diabo da cruz, da luta política no terreno partidário. Recusam-se a aprender a lição que Lula aprendeu quando criou o PT: é no exercício do poder que se definem os rumos do mundo e das nações.

A consequência mais evidente desse erro é a aceitação passiva de um sistema político aleijado no qual não existe a direita autêntica. Todos os partidos brasileiros são organizações patrimonialistas, defensoras de mais ingerência do Estado na vida do cidadão. Os brasileiros desconhecem o que é a Liberdade. Em 2014, assim como foi em 2010, todos os principais candidatos à Presidência da República serão de esquerda.


Ao leitor atento não terá escapado a percepção de que há uma interrogação plantada entre parêntesis dois parágrafos acima. Sim, estão em gestação pelo menos duas legendas liberais autênticas no Brasil. Trata-se do Partido Novo e do Partido Federalista. Voltarei a essa análise numa próxima oportunidade.